Sugestionável

Março 30, 2008

Melissa Mattos

Cada um tem uma forma de se deixar apanhar pela arte. Um artista me acerta em cheio quando seu trabalho me inspira a criar também. Bem, esse é um dos (meus) motivos mais recorrentes . Credito a isso o volume de trabalhos de qualidade que ganha vida ao haver um convívio artístico em um determinado lugar. Convívio de criadores com o necessário talento, é claro.

Talvez  por isso ande tão relapso com meus posts nesse espaço. Tenho tido pouco contato com o que me provoque. Mas isso é assunto meu. Em contrapartida, quando surge uma luz, ela emoldura de forma mais correta com seu foco. Foi como me senti ao ver as fotos da Melissa, filha do amigo e fotógrafo Tarcísio Mattos. Vale cada segundo de observação e a leitura das legendas confirmam o calibre da fotógrafa.

“As aves aqui do Porto são um pouco esquisitas. Não dei bola da primeira vez, quando vi uma gaivota em uma praça, comendo milho com os pombos. Achei curioso ver uns patos nadando no rio, quando fui à ribeira… Mas hoje… uma galinha me perseguiu por todo o jardim do Palácio de Cristal, e foi, por sua vez, seguida por um galo. Quando, depois de tentar enxotá-los umas dez vezes, eu desisti e sentei. Estavam lá as gaivotas de novo… boiando em um laguinho. Sei não…
Esse galo, aliás, gritava igual aquele dinossauro que atacou o homem que roubou o dna no parque dos dinossauros… Juro que desde hoje eu acredito na teoria da evolução dos dinossauros para aves. ”

E olha que o paizão diz ser o terceiro em qualidade de produção artística na família Mattos.

Janeiro 27, 2008

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VIDA NOTURNA

(Aldir Blanc)

Acendo um cigarro molhado de chuva até os ossos
E alguém me pede fogo – é um dos nossos
Eu sigo na chuva de mão no bolso e sorrio
Eu estou de bem comigo e isto é difícilEu tenho num bolso uma carta
Uma estúpida esponja de pó-de-arroz
E um retrato meu e dela
Que vale muito mais do que nós dois
Eu disse ao garçom que quero que ela morra
Olho as luas gêmeas dos faróis
E assobio, somos todos sós

Mas hoje eu estou de bem comigo
E isso é difícil
Ah, vida noturna
Eu sou a borboleta mais vadia
Na doce flor da tua hipocrisia

Alumbramentos

Novembro 12, 2007

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Mostrou-me a cicatriz que lhe atravessava as linhas da palma da mão, como se com ela tivesse alterado qualquer leitura possível deste mapa que o tempo invariavelmente anota. Segurei seu pulso com a gravidade necessária a não assustar um animal acuado, e lentamente explorei-lhe a textura e a temperatura. Mais que comparar, quis igualar nossas marcas. Querendo achar intersecções nas nossas dores e dali tirar razões para mais um alumbramento. “Você já ficou alumbrada?”. “Se soubesse o que isso significa, te responderia”. ”É como ficar iluminado por algo”. “Ou por alguém”, compreendeu. O silêncio e o olhar de viés responderam a pergunta. Não é seguro querer alinhar o que se deseja com o que se sente. O melhor é admitir que quase sempre é uma questão de conquistar e não se deixar conquistar. Manobrar até a armadilha.

Quando tivemos a oportunidade de cruzar nossos caminhos o medo desenhou marcas no chão com tamanha precisão e frieza que foi fácil antever quais palavras seriam as usadas e quais  seriam esquecidas nas gavetas. Como tem acontecido com cada vez mais freqüência, próprio do passar a perceber o tempo, senti o encontro das duas pontas de mais um ciclo. Tentava dar atenção às suas histórias, mas só ouvia meu desejo, sempre ele, desencontrando minhas percepções todas. Ao diabo com essa conversa. Quero te devorar.

Ironicamente, o que me mata também me nutre. Só respeito meu desejo, que acaba sempre por me trair e jogar covardemente poeira aos olhos. Em lugar de prismar minha alma, produz nela aberrações. Distorce. Perverte. Resta aceitar. É isso! É a única aceitação possível. O desejo sempre vence, amigo!

O animal também sou eu. Rapina é minha arte. Espreito pelo que a natureza me conferiu. Nem por mais, nem por menos.

Insône

Setembro 24, 2007

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Pulei da cama às seis da manhã, depois de fritar por horas, com o ímpeto de colocar no papel alguns fantasmas. Meus olhos doem. A ressaca de ontem foi adiada pelo porre de hoje. A de amanhã? Veremos! Tudo permanece em meus devidos vazios. Estou cansado. Os murmúrios da cidade que ressona, acordando, dizem que devo desistir. Novamente, tentar dormir. A única coisa que me conforta são os livros em minha cabeceira. Sempre eles.

Escrevo sem a certeza de onde vou, como que caminhando em madrugada desconhecida, como sempre e em vão desejei que as madrugadas fossem. Por que as noites acabam? Poderia entrar no primeiro bar e buscar algum rumo pra essa história. Esqueça, o sol está tomando conta deste lado do mundo. Um lado ao qual não pertenço. Aqui nunca consegui achar sentido.

Só fica a certeza de que o degredo, paradoxalmente, me torna vulerável e me fortalece.

Hoje não existo. Até a próxima noite chegar.

Nau Frágil

Setembro 22, 2007

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Nau frágil

não é romântico
mas analgésico
de bar em bar
encher o copo
e transbordar

ir a pique
ver nau e fraga
em água profunda
repousar

Jeanine Will

That girl in a cage…

Setembro 8, 2007

Num diálogo do filme Kes, do diretor inglês Ken Loach, o jovem Billy Casper explica ao seu professor sua relação com seu falcão. “As pessoas me vêem com ele e dizem: ‘lá vai Casper com seu bichinho de estimação’. O que elas não sabem é que ele não é domesticado, é adestrado. Não se deixaria pertencer. É livre, feroz e predador e só volta para mim por ser adestrado. E é isso que o torna sublime.”

Sim, ela me fez lembrar aquele falcão, que decide a quem emprestar sua beleza, sua companhia. Nunca seu espírito. Observando-a e aos homens que a cercam compreendo tudo quando ela termina seu vôo sobre minha luva. Dane-se quem não compreende o que digo. Sim, sou capaz de jogar com clareza esse jogo. Aprendi mais com ela em um mês do que com uma dúzia de relacionamentos (cada vez desprezo mais essa palavra). Jogo com mesma carga de perigo e prazer. Principalmente por confundir quem está de fora.

Nessa história não há espaço para amarras, gaiolas ou o que os valha. Aprende aí, companheiro. Assim também funciona.

É preciso?

Agosto 30, 2007

Normalmente busco a medida para a freqüência do ato de escrever pela existência de necessidade incontida, urgência. Vejo-me impelido a pôr aqui uma ou outra idéia, mas apenas legitimo a palavra ao reconhecer quando é urgente a expressão. Por que estou escrevendo? Escrever, como navegar, é preciso. Exato, lacônico. Caso contrário a pergunta seria outra. Para quem estou escrevendo? Nesse momento perderia o possível teor literário e condenaria o texto ao discurso para agradar. A mim ou a quem quer que seja.

Esse princípio parece evidente nas mesas pelas quais tenho passado. Pessoas falam, bebem, amam, vivem movidas por algo que não conseguem determinar. Navegam por que acreditam precisar. No entanto, estão desorientadas. Não há um porto destino. E esse comportamento me surpreende por publicar-se nas personagens mais inesperadas. Coloco-me em silêncio diante do interlocutor e o monólogo se estabelece tal como este o espera. Melhor se eu fosse um fantoche, com reações manobradas por descarados sofismas. A pantomima fundamental. Um movimento imoral em direção ao sentido desejado.

Tragam-me mais uma dose e um só motivo para estar. Sem forças, deixo a correnteza fazer sua parte. Seja o que quiserem que seja. A ninguém mais parece interessar a denúncia da nudez do rei. Talvez nem a mim mesmo.

Nem tudo

Julho 13, 2007

As noites nunca são iguais. Só o que se repete é essa maldita solidão e a consciência das coisas tais como nunca serão. Não sei se apesar disso ou se por isso, continuarei tentando até que uma mão vencedora faça tudo valer a aposta. Têm também os personagens que invariavelmente aparecem.

Estava dando a partida de mais uma noite de quarta-feira na Ilha. Tédio com reserva de mesa e caldinho de feijão. Um papinho sobre a noite anterior na varanda do botequim, acompanhado do vento gelado de julho. Uma linda morena sobe o portal. Jeans e uma jaquetinha curta, que valorizava as longas pernas e uma bundinha que poderia passar a noite inteira a me olhar e a mandar a saideira pro final da fila. Carregava uma pilha de livros. Colocou-os sobre o balcão e foi distribuindo, dois a dois, aos clientes do bar. “Posso mostrar o meu trabalho para vocês?” Outra neoalternativa da Lagoa, cruzando o morro em busca de reconhecimento e grana pro neobaseado. Bem, ela escreve, ao menos. Vejamos! Não consigo ler poesia com facilidade. É sensibilidade demais pra minha má prosa. Os versos dela me pareceram muito ruins. “Obra beneficiada pela Lei de Incentivo Cultural”. Oba! Lixo financiado pelos impostos que costumo driblar. Isso me deixa no lucro.

O frio estava consumindo meu humor e fui até o carro pegar um cachecol pra enganar o vento. Na calçada acabo ladeado pelas longas pernas da morena, que saíam do bar. “Vendeu tua arte?”. “Não, mas nem tudo tem que ser ótimo”. Que diabos ela quis dizer com isso? “Tudo pode piorar, acredite. Acontece sempre comigo”. Caminhava feito uma felina, movendo-se muito lentamente. Poesia não, mas diria muita bandalheira no teu ouvido. Meu tipo de poesia, enfim.

F.

Junho 16, 2007

Construo histórias breves. Imagens dignas da moldura em minha parede. Cuidadosamente construindo fotogramas. Promover o acaso é sempre um jogo perigoso. Ainda assim me acho preparado. E pedindo por isso. Esse exercício te dá o que o Mirisola chama de repertório em lugar de um caráter. Isso basta.

Vida e morte. Desrespeitadas. Provocadas. Tratadas por mim como se fosse um toureiro em uma arena com dois animais a serem vencidos. Sem rosas ao final da disputa. Apenas um olhar vazio e a vontade de começar tudo de novo. Caso não levasse assim minhas noites vazias, quão mais vazias elas seriam. Meu cinismo brilha. Hoje não tenho a quem prestar satisfações, a não ser ao meu espelho e ao meu senhorio.

Ela surgiu de dentro do carro, acompanhando um casal que eu já esperava. Vestia preto da cabeça aos pés e, ainda assim, parecia luminosa. Luvas de lã naquelas mãos pequenas. “Essa é minha prima, F.”. É isso! Menos uma noite entre mortos-vivos na Lagoa. A sorte às vezes sorri. Escolhemos um bar mais movimentado. Notei inseguranças, o que só aumentou meu interesse. Riso nervoso, muitas palavras, olhos inquietos. Ouvia gritos naqueles gestos incontidos. Pedidos de reconhecimento e socorro. Conheço bem essa linguagem, menina das luvas pequenas. O que há comigo? Por que não estendo a mão? Por que não estendo mais a mão?

Combinamos um jantar para a noite seguinte. Busca de coisas em comum, histórias de família, considerações sobre literatura, cinema e o quanto a cidade seria melhor se nossas idéias fossem ouvidas. Já sei onde isso não vai dar. “Adorei conversar com você hoje. Vamos combinar algo um dia destes”. Ela viu aquele olhar vazio? Um dia acabaríamos trocando apelidos imbecis. Só o que brilha em mim é o cinismo. Tudo bem. Nele estou mais seguro.

Jeanine

Junho 5, 2007

Aquela mulher

Deu a ré
sobre meu ego
estacionou
no meio da rua
do meu sossego
bateu a porta
bateu boca
voltei pro meu beco
pro meu boteco
sem saída

Jeanine Will

Peladeiros

Junho 5, 2007

Se batesse a bola que uns escritores batem por aí, estava em campo, não na arquibancada. Não pretendo nessas crônicas fazer literatura. Devia ter um nome pra quem quer apenas se divertir escrevendo na rede. Algo mais nobre que blogueiro. Peladeiro talvez. Uns parágrafos (lidos ou escritos) e umas cervejinhas. Liturgia na vagabundagem, na falta de pretensão.

Você encontra uns caras que não mereceriam uma editora, mas te divertem com seus textos e opiniões. Tá, qual o problema? Blogueiros estão interessados em trocar leituras, impressões. Bater uma bola. Tem muita porcaria por aí, principalmente nas editoras, que não trocaria nem morto pela leitura dos blogs do Duda Bandit e da Jeanine Will. Dois caras que para mim deveriam estar publicados. Daqui a pouco emplacam.

Enquanto isso, entre uma e outra, vou pensando nos textos dos amigos. E no Boca Juniors.

Fantasia

Maio 23, 2007

“Fiquei sem jeito de falar o que falei antes”, teclei no messenger. “As coisas são assim. Passamos a maior parte do tempo fantasiando”, rebate o amigo. Estava chateado com o reencontro com uma morena com quem havia passado um final de noite que se estendeu até a outra noite. Horas assim só consigo dispender com quem me interessa muito.

Lagoa, alguns dias depois, uma noite de chuva e muitas voltas pra achar um bar aberto que me servisse de suporte para o porre que pretendia construir. Encontro apenas uma lanchonete. Encaro. No canto, com um sorrisinho sacana, a morena. Ora, veja você. O reencontro não dura muito. Outros na mesa resolvem se retirar e uma amiga gostosa, de carona, a arrasta. Espero. Ligo. Não quis ligar horas antes. Agora, tudo bem. “Alô”. “Volta depois”. “Não posso. Já é tarde e amanhã tem trampo cedo”. “Se quiser, tem um lugar na minha mesa até perto do amanhecer”.

Bebo umas latinhas e o cara que tava atrás do balcão começa a jogar água pelos cantos, lavando o bar. Porra! Lagoa de merda. Pego o carro contorno o quarteirão e vejo um boteco aberto. O Diabo existe. Estaciono e entro. O Diabo existe e tá de sacanagem comigo. Lá estão as duas novamente, numa mesa de malucos. Trampo. Sei. A amiga querendo uns tiros. Lamentei desejar um reencontro. Lamentei estar exposto. Lamentei tudo.

Sentei à mesa. Afinal, aqueles malucos também eram meus convivas.

Hoje. Vinho em casa. Meio puto com a noite anterior. Resolvi não ir ao bar onde elas estariam comemorando o aniversario da amiga gostosa. Chega de malucos. Por hoje. Toca o telefone. “Oi. Você não veio. Queria que estivesse aqui”. “Rola outro dia”. “Me liga”. Desligo e penso que encano demais.

“Fiquei sem jeito de falar o que falei antes”. “As coisas são assim. Passamos a maior parte do tempo fantasiando”, rebate o amigo.

O que resta?

Maio 21, 2007

Após um almoço tardio, como em todos os domingos, me preparava para … outro domingo. Não costumo me divertir muito nesse dia e não é pela razão universal. Há muito os dias têm sido pouco divertidos. Os domingos são apenas uma unidade a mais nessa escala que mede nossa solidão. Apenas coroam a semana.

Vivo só. Desde meus 20 anos. Incluindo aí um período de oito anos de solidão a dois. Aprendi a apreciar o que vem com isso. A leitura, a observação, a música, o apreço por momentos com amigos.

Apesar disso, ultimamente, quando me exponho às situações e às pessoas acabo aborrecido. Mil vezes um gibi. “Mas você conhece muita gente”, diz um amigo numa mesa de bar tentando gentilmente me alegrar, mal sabendo que essa condição não gera dor alguma. Apenas um torpor diante do outro. Anestesia. Conhecer muita gente e saber que mais da metade delas não vale um bom dia. Os outros? Bem, são o que me resta.

Re… Começando

Maio 21, 2007

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Colocar qualquer coisa em um texto nunca é algo indolor. Tentar não imitar os escritores que aprecio e tornar inteligível o que digo sempre foi um bom motivo para que eu buscasse outras formas de expressão. Incluo aí a fotografia, minha linguagem preferida. Assumidas as limitações, espero que você aprecie.