Alumbramentos
Novembro 12, 2007

Mostrou-me a cicatriz que lhe atravessava as linhas da palma da mão, como se com ela tivesse alterado qualquer leitura possível deste mapa que o tempo invariavelmente anota. Segurei seu pulso com a gravidade necessária a não assustar um animal acuado, e lentamente explorei-lhe a textura e a temperatura. Mais que comparar, quis igualar nossas marcas. Querendo achar intersecções nas nossas dores e dali tirar razões para mais um alumbramento. “Você já ficou alumbrada?”. “Se soubesse o que isso significa, te responderia”. ”É como ficar iluminado por algo”. “Ou por alguém”, compreendeu. O silêncio e o olhar de viés responderam a pergunta. Não é seguro querer alinhar o que se deseja com o que se sente. O melhor é admitir que quase sempre é uma questão de conquistar e não se deixar conquistar. Manobrar até a armadilha.
Quando tivemos a oportunidade de cruzar nossos caminhos o medo desenhou marcas no chão com tamanha precisão e frieza que foi fácil antever quais palavras seriam as usadas e quais seriam esquecidas nas gavetas. Como tem acontecido com cada vez mais freqüência, próprio do passar a perceber o tempo, senti o encontro das duas pontas de mais um ciclo. Tentava dar atenção às suas histórias, mas só ouvia meu desejo, sempre ele, desencontrando minhas percepções todas. Ao diabo com essa conversa. Quero te devorar.
Ironicamente, o que me mata também me nutre. Só respeito meu desejo, que acaba sempre por me trair e jogar covardemente poeira aos olhos. Em lugar de prismar minha alma, produz nela aberrações. Distorce. Perverte. Resta aceitar. É isso! É a única aceitação possível. O desejo sempre vence, amigo!
O animal também sou eu. Rapina é minha arte. Espreito pelo que a natureza me conferiu. Nem por mais, nem por menos.