Nem tudo
Julho 13, 2007
As noites nunca são iguais. Só o que se repete é essa maldita solidão e a consciência das coisas tais como nunca serão. Não sei se apesar disso ou se por isso, continuarei tentando até que uma mão vencedora faça tudo valer a aposta. Têm também os personagens que invariavelmente aparecem.
Estava dando a partida de mais uma noite de quarta-feira na Ilha. Tédio com reserva de mesa e caldinho de feijão. Um papinho sobre a noite anterior na varanda do botequim, acompanhado do vento gelado de julho. Uma linda morena sobe o portal. Jeans e uma jaquetinha curta, que valorizava as longas pernas e uma bundinha que poderia passar a noite inteira a me olhar e a mandar a saideira pro final da fila. Carregava uma pilha de livros. Colocou-os sobre o balcão e foi distribuindo, dois a dois, aos clientes do bar. “Posso mostrar o meu trabalho para vocês?” Outra neoalternativa da Lagoa, cruzando o morro em busca de reconhecimento e grana pro neobaseado. Bem, ela escreve, ao menos. Vejamos! Não consigo ler poesia com facilidade. É sensibilidade demais pra minha má prosa. Os versos dela me pareceram muito ruins. “Obra beneficiada pela Lei de Incentivo Cultural”. Oba! Lixo financiado pelos impostos que costumo driblar. Isso me deixa no lucro.
O frio estava consumindo meu humor e fui até o carro pegar um cachecol pra enganar o vento. Na calçada acabo ladeado pelas longas pernas da morena, que saíam do bar. “Vendeu tua arte?”. “Não, mas nem tudo tem que ser ótimo”. Que diabos ela quis dizer com isso? “Tudo pode piorar, acredite. Acontece sempre comigo”. Caminhava feito uma felina, movendo-se muito lentamente. Poesia não, mas diria muita bandalheira no teu ouvido. Meu tipo de poesia, enfim.