F.

Junho 16, 2007

Construo histórias breves. Imagens dignas da moldura em minha parede. Cuidadosamente construindo fotogramas. Promover o acaso é sempre um jogo perigoso. Ainda assim me acho preparado. E pedindo por isso. Esse exercício te dá o que o Mirisola chama de repertório em lugar de um caráter. Isso basta.

Vida e morte. Desrespeitadas. Provocadas. Tratadas por mim como se fosse um toureiro em uma arena com dois animais a serem vencidos. Sem rosas ao final da disputa. Apenas um olhar vazio e a vontade de começar tudo de novo. Caso não levasse assim minhas noites vazias, quão mais vazias elas seriam. Meu cinismo brilha. Hoje não tenho a quem prestar satisfações, a não ser ao meu espelho e ao meu senhorio.

Ela surgiu de dentro do carro, acompanhando um casal que eu já esperava. Vestia preto da cabeça aos pés e, ainda assim, parecia luminosa. Luvas de lã naquelas mãos pequenas. “Essa é minha prima, F.”. É isso! Menos uma noite entre mortos-vivos na Lagoa. A sorte às vezes sorri. Escolhemos um bar mais movimentado. Notei inseguranças, o que só aumentou meu interesse. Riso nervoso, muitas palavras, olhos inquietos. Ouvia gritos naqueles gestos incontidos. Pedidos de reconhecimento e socorro. Conheço bem essa linguagem, menina das luvas pequenas. O que há comigo? Por que não estendo a mão? Por que não estendo mais a mão?

Combinamos um jantar para a noite seguinte. Busca de coisas em comum, histórias de família, considerações sobre literatura, cinema e o quanto a cidade seria melhor se nossas idéias fossem ouvidas. Já sei onde isso não vai dar. “Adorei conversar com você hoje. Vamos combinar algo um dia destes”. Ela viu aquele olhar vazio? Um dia acabaríamos trocando apelidos imbecis. Só o que brilha em mim é o cinismo. Tudo bem. Nele estou mais seguro.

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